Para além do clima e do solo da Chapada Diamantina, conheça os rostos e as trajetórias de quem transformou o sonho da Vinícola em uma realidade que muda vidas e a região.
Nem em sonho Thiago Ribeiro de Souza, 29 anos, imaginou ver uma Vinícola em plena Mucugê, muito menos trabalhar em uma. Natural de São Paulo/SP e criado em Nova Redenção/BA, mudou-se para Cascavel, distrito de Ibicoara/BA, com a família em 2006. Foi ali que consolidou sua relação com o território, sem saber que, anos mais tarde, ajudaria a moldar novos caminhos para a região.
O ano era 2015 e, até então, Thiago nunca tinha tido contato com as videiras. Ingressou na Fazenda Progresso no serviço geral de campo, trabalhando com café, mas logo recebeu o convite para integrar o projeto da Uvva, que, naquela época, ainda dava seus primeiros passos.
No começo, eram apenas duas quadras plantadas. O terreno plano começava a ganhar forma aos poucos. Coube à equipe da qual Thiago fazia parte montar toda a estrutura: fincar estacas, erguer mourões, alinhar tudo com cuidado e montar o sistema de condução onde, mais tarde, as videiras cresceriam. Era o nascimento físico do vinhedo.
Tudo era novo e o aprendizado acontecia no dia a dia, no fazer. Vieram o plantio, a limpa, a condução das plantas, a poda, a brotação. Cada etapa exigia atenção, paciência e muita disposição para aprender. Thiago abraçou aquela oportunidade com cuidado e empenho.
Mais ou menos na mesma época, a cerca de 600 quilômetros dali, em Petrolina, no sertão pernambucano, Antônio Mendes e Joyce Fagundes — estudantes e pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) — viviam outro começo da mesma história.
Antônio costuma dizer que sua trajetória é feita de “quases”. Quase foi trabalhar no Espírito Santo. Quase seguiu para o Rio Grande do Sul. Mas foi um caminho de coincidências (e escolhas) que o trouxe até a Chapada Diamantina.
Natural de Santa Maria da Boa Vista/PE, às margens do Velho Chico, Antônio mudou-se para Petrolina em 2009, onde iniciou seus estudos em Enologia. Em 2013 concluiu a graduação e, no mestrado, passou a estudar o comportamento de vinhos e espumantes produzidos no Morro do Chapéu/BA.
Em 2015 teve o primeiro contato direto com as uvas da Fazenda Progresso, fazendo parte da equipe responsável pelas microvinificações, um trabalho em pequena escala que permite testar as uvas e compreender seu potencial antes de qualquer produção maior. Foi nessa época que conheceu Marcelo Petroli, enólogo-chefe da Vinícola Uvva.
Joyce, por sua vez, nasceu em Santo André/SP, mas foi no eixo Petrolina–Juazeiro que construiu sua formação acadêmica. Tecnóloga em Alimentos, Joyce ingressou no mestrado em Agronomia e participava de um projeto de pesquisa voltado à indicação de procedência. Foi nesse contexto que as primeiras uvas da Fazenda Progresso começaram a chegar para análise.
Em pesquisas distintas, Antônio e Joyce, teste após teste, ajudaram a dar forma aos rótulos da Vinícola. Na vida pessoal, compartilhavam a paixão pela natureza e um namoro.
Anos depois, em 2018, veio o convite para o casal trabalhar na Uvva e a mudança para a Chapada Diamantina. Antônio chegou primeiro. Joyce veio cerca de um mês depois. Não conheciam ninguém em Mucugê, tiveram que lidar com o clima diferente e o impacto de começar do zero em uma cidade pequena, distante de tudo o que era familiar.
Na Vinícola encontraram um projeto ainda em construção: só havia teto e chão. Faltavam paredes, laboratório, tanques. Apesar disso, Antônio e Joyce assumiram ali seus primeiros empregos formais e, junto a eles, um cotidiano que exigia adaptação e criatividade, motivado, sobretudo, pela fé e pela paixão no projeto que ajudavam a construir. O provisório era, ao mesmo tempo, fundacional.
Joyce foi a primeira mulher contratada para trabalhar na Vinícola, ocupando um espaço que também estava sendo criado. Ela ri ao lembrar de uma banqueta que usou como bancada improvisada e depois da mesa de madeira que deixou com marcas de uso, manchada pelo contato com álcool e reagente utilizados no laboratório.
Oito anos depois, Antônio e Joyce vivem uma rotina na qual o cuidado com os detalhes guia cada decisão. Um dia a dia no qual a liberdade é sinônimo de responsabilidade, mas também de pertencimento: se reconhecem como parte viva do projeto, como se cada garrafa também carregasse um pouco deles.
É inegável que a amplitude térmica, o clima tropical de altitude e o solo franco-argilo arenoso da região são fatores decisivos para as características encontradas nos vinhos da Uvva. No entanto, para Joyce, os verdadeiros diamantes da Vinícola são as pessoas por trás de cada escolha. “Eu tenho um pensamento que é: os vinhos têm uma característica natural do terroir, mas também o estilo que alguém quer apresentar. Não é apenas a região, nossos vinhos são especiais pela intenção do que é produzido; por conta do olhar”, explica.
Desde o início, campo e pesquisa trabalharam juntos para criar o que hoje é a Uvva. Thiago é atualmente responsável pela equipe de cultivo, Joyce, pelo laboratório da Vinícola e Antônio, coordenador da área de produção.
Em setores distintos, presenciaram os primeiros passos da Vinícola, acreditaram e persistiram onde alguns não viram futuro. Junto a outras mãos, contribuíram para transformar o que ainda estava em construção em um empreendimento consolidado, que mudou o turismo da região, a fazenda e a vida de muitas pessoas.
Quando as histórias crescem junto ao vinhedo
Isabela Rodrigues Vasconcelos, de 28 anos, fala com as mãos e com o brilho no olhar de quem é apaixonada pela Uvva. Desde 2024 ela é uma das enólogas que conduz os visitantes e faz com que eles também se apaixonem pelo lugar.
Natural de Petrolina/PE, filha de mãe professora e pai motorista, cresceu cercada pelo estudo e pela curiosidade. Formou-se em Enologia no Vale do São Francisco e iniciou sua trajetória profissional na área industrial, mas sempre de olho no enoturismo.
Quando a Uvva foi inaugurada, ainda recém-formada, Isa chegou a participar de um processo seletivo, mas sentiu que precisava de mais maturidade antes de dar esse passo. Anos depois, ao visitar Mucugê e conhecer o projeto de perto, teve certeza: queria viver ali. Quando a nova oportunidade surgiu, a decisão foi rápida. Em poucos dias, a enóloga já estava de mudança.
Mas, se a decisão foi simples, a adaptação nem tanto. A troca da cidade grande pela calmaria de Mucugê trouxe estranhamentos: menos opções de lazer, outro ritmo, uma sensação quase cenográfica no início. Mas, pouco a pouco, a tranquilidade passou a fazer sentido e hoje Isa não se imagina vivendo de outra maneira.
Para ela, lidar com o público é um dos maiores desafios da profissão. Cada tour exige uma delicada percepção do que o grupo de visitantes precisa, com o que eles se conectam mais, ou menos. “É desafiador, mas gratificante. Por exemplo, uma vez recebemos uma mulher que tinha lutado contra um câncer. Na época do tratamento, ela começou a gostar de vinho depois de provar um da Uvva e colocou essa meta de fazer o tour quando ela estivesse curada. E ela veio, o passeio todo foi muito emocionante”, relembra a enóloga.
Desde a abertura ao público, em março de 2022, a Vinícola Uvva já recebeu mais de 27 mil visitantes, atraindo pessoas de diferentes regiões do Brasil e também do exterior. Esse fluxo constante ajudou a ampliar o olhar sobre a Chapada Diamantina, tradicionalmente associada ao ecoturismo, revelando um território que também produz vinho, gastronomia e experiências culturais de alto nível. Ao lado de outras iniciativas, a Vinícola contribui para a geração de empregos, para o fortalecimento da economia local e para um modelo de desenvolvimento que busca equilíbrio entre produção, paisagem e comunidade.
E se Isa traduz a Uvva em palavras, há quem a traduza em sabor. Porque a experiência dos visitantes da Vinícola não se constrói apenas no campo ou na taça, mas também na mesa. É nesse ambiente, onde vinho, comida, arte e território se entrelaçam, que a história de Jonas Carvalho Souza, de 22 anos, ganha novos contornos desde 2025.
Quem ouve a história rapidamente talvez pense que foi a sorte que se encarregou de trazê-lo até o restaurante Arenito. Sim, talvez tenha um pouco a ver com isso, mas a persistência dele é que foi senhora desse destino.
Filho mais novo, foi o primeiro a sair de casa, aos 14 anos, motivado pelo desejo de retribuir tudo o que os pais fizeram por ele. Nascido na Comunidade Quilombola de Barriguda, zona rural de Mucugê, ele migrou para o Vale do Capão “sem saber o que queria da vida, só sabia que queria trabalhar”. Capinou, roçou, limpou, aceitou o que surgisse e que pudesse colocar comida na mesa.
Em uma dessas coincidências que a vida insiste em criar, Jonas encontrou um cachorro que havia fugido da dona, e fez questão de devolvê-lo. Entre um agradecimento e outro, a conversa aconteceu. Ele contou que estava procurando trabalho. Ela comentou que precisava de ajuda em um serviço pontual de limpeza. Jonas aceitou.
O serviço rendeu mais do que o combinado: ela o convidou para trabalhar na hamburgueria e creperia da qual era dona. Jonas então começou na limpeza, passou a auxiliar de cozinha e ali teve seu primeiro contato profissional com a gastronomia. Foi nesse espaço que nasceu o sonho de, um dia, ter o próprio restaurante.
Permaneceu nesse trabalho por três anos, até que a vida mudou de direção novamente ao conhecer Jéssica, que morava em Seabra/BA. A saudade fez o namoro à distância perder sentido e, juntos, decidiram voltar para Mucugê. Foi então que Jonas enviou uma mensagem à Fazenda Progresso, em busca de uma oportunidade de emprego.
Primeiro tentou uma vaga no campo, mas soube que, naquele momento, não havia transporte até Barriguda. Aceitou que não seria possível, sem insistir mais. Uma semana depois, algo ainda o inquietava. Sabia que na fazenda havia um restaurante para os motoristas e resolveu escrever novamente, dessa vez contando da experiência que já tinha na cozinha. O retorno foi inesperado e ele montou um currículo às pressas, sem imaginar que aquele contato o levaria ao restaurante da Vinícola, o Arenito.
Quando chegou, a felicidade veio misturada com um frio na barriga: o lugar parecia sofisticado demais, distante do que conhecia. Mas decidiu agir com naturalidade e aprender. Entre ingredientes novos, técnicas desconhecidas e um ritmo completamente diferente, Jonas percebeu que poderia se encaixar ali.
Percebeu também que gostava das pessoas, do ambiente de companheirismo, da troca constante. A cozinha, para ele, é uma escola viva. Além da técnica, Jonas encontra ali algo raro: união. Um time que brinca, apoia e cresce junto.
Fora do Arenito, ele cursa gastronomia e também usa outra forma de expressão além da culinária. Gosta de escrever poemas, brincar com rimas e registrar histórias da comunidade quilombola de onde veio. Seja na escrita ou na cozinha, Jonas transforma o cotidiano em poesia. E, quando fala sobre o futuro, não hesita: “vou virar chef”.
Entre histórias, sorrisos e sonhos, revela-se aquilo que sustenta a Uvva para além da paisagem e das premiações: gente. Pessoas que chegam em momentos diferentes, com histórias distintas, mas encontram ali um solo fértil para crescer e se reconhecer.
Na união entre enoturismo, gastronomia e cultura, a Vinícola se constrói todos os dias como um lugar onde o trabalho vira trajetória e o futuro deixa de ser abstrato. Para quem visita, a lembrança de uma experiência inesquecível. Para quem faz, a certeza de que vale a pena ficar, insistir e sonhar.